terça-feira, 16 de outubro de 2012




Não te amo como se fosses uma rosa ou um topázio
Ou a flecha de cravos, que o fogo lança.
Amo-te como certas coisas escuras devem ser amadas,
Em segredo, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floresce e carrega,
Escondida dentro de si, a luz de todas as flores.
E, graças ao teu amor, escura no meu corpo
Vive a densa fragrância que cresce da terra.
Amo-te sem saber como ou quando ou de onde.
Amo-te tal como és, sem complexos nem orgulhos.
Amo-te assim porque não sei outro caminho além deste

Onde não existo eu nem tu.
Tão perto que a tua mão no meu peito é a minha mão.
Tão perto que, quando fechas os olhos, adormeço.

Pablo Neruda

domingo, 14 de outubro de 2012





Eros e Psique"

Conta a lenda que dormia 
Uma Princesa encantada 
A quem só despertaria 
Um Infante, que viria 
De além do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado, 
Vencer o mal e o bem, 
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem. 

A Princesa Adormecida, 
Se espera, dormindo espera, 
Sonha em morte a sua vida, 
E orna-lhe a fronte esquecida, 
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esforçado, 
Sem saber que intuito tem, 
Rompe o caminho fadado, 
Ele dela é ignorado, 
Ela para ele é ninguém. 

Mas cada um cumpre o Destino 
Ela dormindo encantada, 
Ele buscando-a sem tino 
Pelo processo divino 
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro 
Tudo pela estrada fora, 
E falso, ele vem seguro, 
E vencendo estrada e muro, 
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera, 
À cabeça, em maresia, 
Ergue a mão, e encontra hera, 
E vê que ele mesmo era 
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 4 de outubro de 2012






Teus olhos


Acolho teus olhos ainda úmidos em minhas mãos.
Sei que estás em mim.
Também sei que perdi meus olhos em ti.

Tantas nuvens impediram-me de ver teu rosto
Iluminado / Transparente / Lírico.

Depois veio o vento
Rigoroso
E teus cabelos voaram
E tua voz secou diante do céu
Em chamas.

Ainda na cama dos sonhos
A lembrança das tintas
Quadros em movimentos
Cores enfeixadas na paixão.

Um minuto
Pedi.

Um longo silêncio
Ouvi.

Era um sim?
Um não?
Talvez.

Teus olhos
Quis segurá-los
Mas era minha a cegueira
Azul profundo / Abissal oceano.

Teus olhos a dizer
Lágrimas que nunca vi
Meus olhos a arder
Ausências de ti.

Acolho teus olhos ainda úmidos em minhas mãos.

Carlos Eduardo Leal